19.1.07

Eternidade

Me incomoda que as pessoas sempre falem, sobre as coisas ruins, que sejam passageiras, enquanto as coisas boas merecem status de longevas. De modo que é até uma contradição, pois que se está falando de duas possibilidades opostas de existência: a de que tudo passa e a de que tudo fica. Conforme os eventos mudam, buscamos a solução que nos assegure algum sentido resiliente. Podem me dizer que ambas as visões têm sua verdade, e concordarei – mas isso significará outorgar-lhes valor de realidade sempre e conjuntamente, e não escolher como melhor nos aprouver. Afinal, quando se fala de verdade não se fala de justiça.
Alardeamos a impermanência para deixarmos escorrer a água por nossas costas, limpando-as do peso da resistência. Se as coisas duram, também dura toda essa merda que estamos vivendo neste instante. Se tudo passa, tudo sempre passará; poderemos ganhar alguma força para ficar novamente de pé e dar nossos sempre patéticos pulos na tentativa de voar – e não importa que não consigamos, pois o futuro é tão efêmero quanto o passado e o presente. Tanto que já nem parece futuro, parece até que já foi... E podemos agora nos abandonar para algum tipo de carpe diem que nos faça esquecer que para viver precisamos realizar toda essa operação translógica.
Mas já se disse ser insustentável essa leveza do ser, e tivemos que acreditar que as coisas ficam conosco (ora, me parece que toda a psicanálise serviu pra justamente isso...): em nossa memória – que já não se limita a uma fração de cérebro funcionando como armazém, mas se expandiu com as teorias holísticas e tudo o mais para todo o nosso corpo, toda a nossa consciência – guardamos tudo, absolutamente tudo. Por isso podemos falar que jamais deixaremos de amar uma mãe que morreu há mais de meio século, ou que uma experiência sublime de nossa infância não será esquecida, e que mesmo aquilo que esquecemos estará sempre conosco. Atrevemos-nos a afirmar que é isso que nós somos.
Ficando, tudo passa. Morrendo, tudo se eterniza.
Eu creio que o homem é imortal.
Então por favor não me venha alguém dizer que não haverá a nossa morte, pois que eu sei que as coisas podem acabar e acabam, e sequer esperam pela morte minha para terem fim. E não me venham dizer que vai passar, pois já entendi que não passará nunca, e que as cicatrizes de verdade jamais cicatrizam e jamais param de doer, não importa o que se use para cobri-las.
Há o fato de ser impossível viver com essas duas coisas na cabeça ao mesmo tempo. Acho que levaria à loucura. Mas quem encontrou uma verdade também não é capaz de abandoná-la em troca de capacidade vivencial. E voltamos ao começo, e voltamos a não saber o que fazer – pois nunca sabemos o que fazer. E isso é horrível, mas já estou tão acostumado que dá até pra ver aí um pouquinho de sublime.

5 Comentários:

Blogger Yuri disse...

Tristeza não tem fim...
E a felicidade cai como uma lágrima de amor.

19/1/07 01:35  
Blogger Joel Pinheiro disse...

Não me parece que as duas únicas opções filosóficas sejam as de Heráclito e de Parmênides.

Segundo um, tudo muda a todo instante (tanto as coisas como o homem), e portanto qualquer tentativa de se pensa algo é vã, pois tanto quem pensa como aquilo do qual se pensa já não são mais.
Já para o segundo a única coisa que existe é o Ser Absoluto Eterno e Imutável; toda mudança é pura ilusão.

Que ambos tenham captado algo da realidade não há dúvida; mas ter que escolher entre alguma das duas como posição a ser seriamente adotada (ou ainda as duas juntas?) beira o absurdo.

As mesmas posições adaptadas para a individualidade pessoal de cada um parecem igualmente inaceitáveis, e a deficiência vivencial delas é boa indicação disso.

Parece que para a vida subjetiva saudável, assim como para a filosofia sã, vale a constatação que há algo que permanece e algo que muda.

Uma constatação tão óbvia que parece até estúpida, mas a partir da qual podemos ir bem longe.

20/1/07 00:11  
Blogger Artur disse...

Concordo plenamente, e tudo o que eu estava tentando dizer é que, se há algo que permanece e algo que muda, não dá pra gente separar "isso vai", "isso fica", como quem escolhe feijões, mas há algo de eterno e algo de mutável em tudo que possamos experimentar.

20/1/07 11:56  
Blogger Utak disse...

Desculpem, adoraria comentar, mas eu não consigo entender algumas palavras complicadas(sim parece bobo), mas tenho certeza de que captei tudo que queria ser dito e obrigado pela aula de filosofia...

23/1/07 01:38  
Blogger Utak disse...

Não estou em condições psicológicas de responder e possoa acabar falando besteira

23/1/07 01:39  

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