8.11.05

A óbvia excepcionalidade
ou
Madrigal necessário

Não preciso escrever.
Não preciso desabafar,
conversar com alguém,
articular, que seja.
Não preciso chorar
(mesmo assim, choro).
Não preciso de motivos para sorrir.
Não preciso de amigos
de segurança
de auto-afirmação
ou estima.
Não preciso de alguém
que me guie pelo escuro.
Não preciso ser lido,
ouvido, não preciso
que acreditem em mim.

Não preciso ler romances
nem mesmo poemas
Não preciso conhecer filosofia
ou entender como é o amor.
Não preciso comer os sonhos
que minha vó fazia na minha infância
(Não preciso abraçar
minha vó antes que ela se vá).
Não preciso da beleza das flores
quase sem perfume, da pureza da chama
em que se consomem os diamantes
mais límpidos.
Não preciso do calor do travesseiro,
do cheiro do meu cabelo lavado,
da música do quarto vazio,
do gosto de pasta de dentes,
da visão de minhas pálpebras fechadas,
da sensação absoluta e total que se tem
pouco antes do sono e logo após o sexo.
Não preciso do cheiro de café
na loja de chocolate, das
músicas que me fazem pensar em você.
Não preciso, até, sentir
sua respiração em minha orelha
quando você me abraça.

Mas preciso de você —
— Perdoa-me por ser tão banal!

08/11/05

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