20.7.05

Eu vou partir...

Trilha sonora da Vida.
Lembram de há um ano, um pouco mais?
Avenida Paulista. Eu andando de costas andando. Não me derrubem! Um ano ou mais.
Porque laranja e azul? Não me lembro.
Alguma coisa idiota. Tipo o pato. O pulo.
O Pato está na Ratoeira. Quer coisa mais imbecil?
Lembram do Molero? Do rapaz? Da Juventude Nazista e dos rebeldes falando pra gente correr...? Não, dessa vez fomos só nós dois. Chocolate, diamente negro. O passado.
O ônibus balançando e a gente associando palavras. Travesseiro me lembra high-tech, eu disse, e você riu. Tempo? Como assim 'tempo'? Cinqüenta contos minúsculos. Bolinhas e um imã. Bienal, melancia. Mas isso foi depois.

Não sei bem o que foi, acho que foi a bobagem. E o Comênius, quando vocês disseram que eram irmãos. Não eram. Eram meus amigos. Nossos.
Estranho um blog em que falamos de nós mesmos (no plural)
A cidade proibida, Margarida
A cidade é moderna
Urso Canadense, loiro, enorme, rolando no chão.
E um azul estranho, fascínio, facilidade.
Mais il n'est pas facile pour tout.
O bonde fora dos trilhos.

Quando as pessoas choram, seus olhos ficam vermelhos.
Mas somos nós que precisamos de um abraço forte.
Talvez eu até te ame, mas como saber?
Talvez eu nem sequer consiga viver sem você.
Talvez. Peut-être. Forsit.
Salvação.
Messias.
Mundo.
Vida.
Nós.
Eu.

A cidade é moderna
dizia o cego a seu filho
Os olhos cheios de terra
o bonde fora dos trilhos
A aventura começa no coração dos navios
Pensava o filho calado,
pensava o filho ouvindo
Que a cidade é moderna
pensava o filho, sorrindo
Que era surdo era mudo
mas que falava e ouvia...


Talvez tenha sido a idiotice.
Física, Metafísica. Filosofia, política, matemática, literatura.
Bobagens. Música. Arte. Conhecimento, Nhoque.
Egocentrismo.
Bobagens.

Talvez tenha sido a carne. A carne mesmo, a carne macia.
Dava vontade de arrancar com as mãos ou morder com força.
Devorar, Raksha, loba, Shiva. Rita? Todas elas. Sim, todas elas. E todos nós também.

Ou sair dançando a Valsinha. Valsinha me lembra Paulinha e Artur. E Chico Buarque, claro. E, porque é uma valsa, minha vó, meu pai. Forró.
Saivez-vous dancer le forró?
J'sais pas dancer, pas dancer...

"Eu liguei pra dizer que te amo, que te odeio..."

Essas coisas não acontecem, não acontecem. Eu não odeio ninguém. Amo a todos, especialmente vocês. Eu queria me entregar, descansar, mas não importa mais.

Talvez um pouco o CineComentado. Lembram, pipoca com flor, club-social? Lembram dos debates sobre futebol, de quase dormir, ir pra casa? Lembram das brincadeiras, cócagas, carinhos, ombros? E a gente, rindo, cantando uma música qualquer de noite. Mordo sua orelha.

Talvez o Bruno, e depois a Gabi e o Charles. E, mais tarde ainda, a Marie, a primeira fileira da classe. A Cláudia... Saudades das aulas dela, das provas dela. Das ostras. As pérolas de Leminsky.

Acho que eu não sei o que nos juntou, nós três. Nem por que raios criamos este bolg estranho. Nem por que fomos passear na Paulista naquela quinta-feira, nem por que contamos A morte desgraçada de dois amantes muito infelizes que morreram um de veneno outro de dor com vários incidentes em cenas de quinze segundos. Nem por que a borracha veio atormentar o ponto final et cætera.
Mas a questão é que um dia vamos embora. O Artur vai embora ano que vem. Eu não sei o que vou fazer. O Yuri... o Yuri vai ser Yuri. E aí? Vamos continuar escrevendo coisas sem sentido neste blog estranho. Acho que sim. Como disse o Reinaldo, não serve pra nada o patinho ficar lá bicando a ratoeira. A filosofia também não serve pra nada, disse a Ana Bruner. E nós, nós também não.

O rato está na patoeira.
Ou algo assim.

3 Comentários:

Blogger Artur disse...

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se a majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter suado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuras em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo".

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima - esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

20/7/05 22:55  
Blogger Pure disse...

É difícil imaginar o que será de nós depois que o Santa for pequeno demais, coisa que já é. É doloroso ficar imaginando se encontraremos aquelas pessoas que tão bem (ou tão mal) nos fizeram ao longo dos três, dois, cinco, oito, onze anos de convivência.

Lembra do Encontro do ano passado? Lembra do desesperado que vos fala chorando tudo o que podia e que não podia pois não imaginava o ano seguinte sem aquelas pessoas que faziam o ano então presente tão especil? Lembra? Bom, ele está aqui, ele mudou de ano, ele está vivendo sem o convívio diáriodaquelas pessoas pelas quais ele tanto chorou. E não foi só ele. Outros, mais discretos, que também sofreram, também estão aqui. Também estão vivendo.

Quem ama corre atrás. E não é só amar no sentido manipulador da sociedade; é gostar, se emportar, se preocupar com, é amar. E correr atrás é ter certeza de que a amizade resistiu a distância. É ter certeza de que tanto faz a distância ou a frequência das visitas, aquela pessoa sempre vai voltar para você e você para ela.

Bom, é são só as idéias de um tolo...

21/7/05 09:32  
Blogger Yuri disse...

É muito confortante ler isso: o Yuri vai ser Yuri. ma coisa a menos com a qual me preocupar.

19/7/10 14:32  

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