29.12.04

Este mundo de orvalho

Forcei-me a acordar mais cedo pra vir falar o Sônho.

Aquela elevação onde estávamos deitados era como a plantação onde os pessegueiros de Kurosawa dançavam para o menino...
deitados nos diversos níveis da elevação, dois a dois - mas cada um mas perto dos que lhe estavam acima e abaixo do que de quem encontrava-se-lhe pé com pé.
Era coberta de grama rala...
...e verde clarinha.... a elevação.
Ríamos, como sempre,

era como eu rio na vida real: o Sônho era verdadeiramente sonho, tinha suas manifestações inconscientes ilógicas de sempre. Mas era como eu rio na vida real!...

Chega alguém no topo da elevação. Faz-nos perguntas, esse novo garoto.
Nós respondemos, explicitando a dinâmica de nossas relações
como pessegueiros, como pessegueiros!...
E então, enquanto com o dedo eu escrevia na grama
- pois eu podia fazê-lo, felizmente -
acordo pela segunda vez.

Acabo de perceber que não posso falar o Sônho.
Quero-- quero gritá-lo, mas nem posso proferi-lo com o mais suave suspiro.
Suspiro (agora verbo na primeira pessoa do singular, no presente do indicativo).
Acordei só para falá-lô. Porque não podia permanecer indito. Não pode, mas deve, temque, vai--
Porque...
....porque estou sendo lido por talvez pais talvez pais de amigos talvez amigos
talvez colegas talvez desconhecidos. ....Porque estou sendo lido - ponto.
....porque o mundo não é tão simples como o Sônho, ao contrário de todos os outros sonhos, era.

Simples porque
Eu realmente fui ingênuo a ponto de acreditar que tudo,
toda a confusão, a bagunça,
a dor de cabeça, a falta de nitidez,
pudessem se desembaraçar num barbante liso,
pudessem acabar num beijo.

....por isso. Porque como o sonho foi Sônho, esse beijo foi o Bêijo.

Não um longo beijo de língua que une duas almas,
não um beijo longo de Hollywood ou de novela,
nem mesmo um beijo apaixonado, enamorado.
Foi um beijo sem paixão ou amor
mas de um crescente gostar. Havia esquecido a simplicidade do 'gostar'.
Um beijo simples, só dois lábios envergonhados e comprimidos
se apertando enquanto as mãos ficam sem saber o que fazer.

Não me surpreende que tal sonho tenha me vindo justamente essa noite. noite que não era Nôite, que não era.
Quando minhas esperanças vão se esfiapando, e só um frágil fiapo de neve me segura nesse corpo amortecido (a..morte..cido, mortificado...). Quando eu falo pra mim - sem produzir som algum - tudo o que me envergonha na minha existência: que nada vale a pena.
Antes desse Sônho, eu me perguntava se a felicidade era possível, Realmente. Se 'o ser humano morre e não é feliz'.

Mas era possível, o tal ser feliz! Depois de só esse beijo
(e alguns outros ao longo do Sônho,
poucos e separados e singelos como o 1°,
só pra ter certeza), a totalidade das coisas começou
a mover-se como engrenagens, num mecanicismo místico, holístico.
O beijo: motor imóvel.
reproduzível,
carnal, profano.

Era possível e é. Acredito nisso, ainda mais depois dess'o Sônho.
Mas isso não é uma mensagem de esperança,
otimismo. Jamais, pois esses dois substantivos me repugnam (e vice-versa, talvez).
É possível, mas nada aqui me garante que ele chegará, o tal ser feliz,
que minha espera(nça) não vai me afundar cada vez mais na direção que lhe é oposta a si.
É o que ela(nça) tem feito até hoje... n'est pas?

Estávamos tão movidos, nós dois, que mal nos encontrávamos
dentre nosso ansioso caminhar de um lado para o outro de onde quer que estivéssemos
(não mais uma elevação
verde de pessegueiros,
mas uma casa - a de minha vó,
mas também a da outra pessoa
que compunha 'nós dois'),
e era nesses raros encontros que lembrávamos
o Bêijo, concretizando-o repetidamente.

"A outra pessoa que compunha 'nós dois'". Que ela não é, em verdade, tal outra (...).
Não a amo. Não estou por ela apaixonado. Esse ser humano
que eu até mal conheço (quem eu conheço, afinal?): mas para ele
nunca mais poderei
olhar(?) sem
lembrar que no Sônho, o Sônho,
era ele tal outra.
[concordância.]

Fazíamos planos.
Ou Taloutra fazia, tão
embebido e bêbedo estava enh' O Bêijo.

Combinamos ficar juntos,
namorar (quem sabe até,
um dia talvez,
amar, se apaixonar...),
combinamos um jantar - não sozinhos, mas
com um pai (não o meu)
para comemorar.

Comemorar o quê? Não, não o Bêijo: pois ele só o fora para nós.
Comemorar que pudéramos falar o Bêijo.
Entendem agora
porque
não comemoro?
não há otimismo
ou esperança?
Precisava falar o Sônho.

E quando vi os dois (esses dois, ao contrario do ser humano
de que antes falei e talvez ainda venha a falar
- não sei,
o sonho vem chegando ao fim -,
posso nomear:), a Marina e o Yuri,
pude apenas pegá-los pela mão e,
na sala vazia,
dançar pular
chorando de alegria.
Não digo de felicidade porque, mesmo possível, ela era apenas
uma possibilidade,
mas uma possibilidade certa.
Decorreria da alegria, certamente.

Não me lembro se os dois entenderam o que eu queria lhes uivar. Mas eles pularam e dançaram comigo, e riram enquanto eu chorava.
de alegria...
Apesar de tudo, queria dizer
que gostei de dividir em sonho esse momento com vocês dois.
Vocês dois
são quem lê-me (qualquer trocadilho,
aviso, terá sido intencional nesse momento) aqui,
mesmo que mais pessoas leiam o que escrevo na grande ratoeira azul,
é para vocês dois que eu escrevo todos os meus posts.
E não, não, não, não sei porquê o faço assim.

Simplicidade

nove e vinte da manhã

alegria

quarta feira, dia vinte

o Bêijo...

e nove de dezembro

... sem paixão ou amor...

a luz entrando pelas frestas

... apenas de um crescente gostar...

meu pulso direito doendo

... só dois lábios envergonhados e...

minha respiração próxima ao

... comprimidos...

travesseiro

... fazíamos planos...

a respiração

... planos...

o ar entrando e saindo, a trajetória do ar

... alguns outros, só pra ter certeza...

o calor do cobertor

... motor imóvel e profano...

e o frio de sua ausência

... pelas mãos,...

quentes, elas, as mãos

... o Yuri e a Marina...

não estão aqui, os dois

... pulando, dançando...

meu corpo parado,

... e eu chorando de alegria...

deitado no colchão.

... de alegria. Não digo
de felicidade.

Não, com certeza vocês não sabem a dor que foi
o meu acordar.
E agora, pela terceira vez (a segunda foi o segundo acordar,
lá em cima em negrito, do perceber que o Sônho
não seria VERDADEIRAMENTE contado; a primeira
foi deste primeiro acordar) eu choro, c..o..n..c..r..e..t..a....e....r..e..a..l..m..e..n..t..e.. .
Mas antes de chorar
por ter acordado,
eu gritei.
Primeiro sem voz,
minhas cordas vocais apenas acordando,
mas depois, crescent
emente, com um som alto e nada firme
da voz que se levanta após horas dormindo,
eu gritei "não".
"não". não. não
não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não
não! NÃO NÃO NÃO
NÃO! NÃo! Não! não! não....
nãummm.... nãããnn....... nãñ.... nã.....
nnn...
nnn.

Gritei tantas vezes e tão alto que
se alguém estivesse em casa, mesmo que do outro
lado do apartamento, teria escutado
e talvez pensado 'que eu estava dormindo'
ou 'que eu estava, finalmente (pois já era esperado),
ficando louco'.

E quando o Grito-Não silenciou,
aí sim eu chorei.
Não, nenhuma lágrima: elas só começariam no segundo choro, aumentando
e tornando-se mais ardentes no terceiro.
Mas meus olhos estavam cheios d'água e
meu inspirar e respirar fundos
já eram um choro.
E não faltavam os soluços e os gemidos
os soluços e os gemidos
os gemidos
gemidos
gemidos.

Dicen que por las noches,/ no más se le iba en puro tomar,/ Dicen que no dormía,/ no más se le iba en puro llorar./ Juran que el mismo cielo se estremecía al oir su llanto./ Cómo sufrió por ella/ que hasta en su muerte la fue llamando.

De certa forma, esse post é diferente dos outros dessa enorme ratoeira azul-marinho e rotatória.

Cucurrucucú, cantaba,/ cucurrucucú, gemía,/ cucurrucucú, lloraba,/ de pasión mortal moría.//
Que una paloma triste/ muy de mañana, le va a cantar,/ a la casita sola, con sus puertitas, de par en par./ Juran que esa paloma/ no es otra cosa más que su alma,/ que todavía le espera/ a que regrese la desdichada.

Quem sabe um dia ainda eu possa lhes falar o Sônho, VERDADEIRAMENTE.
Pra falar a verdade, não sei o que mais poderia lhes dizer. Talvez tudo o que eu pudesse fazer fosse repetir o que aqui disse - talvez mesmo lendo-o, já que esse 'quem sabe um dia' não deve chegar tão cedo, não acho que chegará tão cedo. Mas haverá um nome. Um nome desimportante na realidade, de verdade, que eu não amo e pelo qual não sinto paixão, na realidade, na realidade.
Pois esse nome é só mais uma gota incolor insípida inodora como as outras,
no entanto, no entanto...
...enh' O Sônho, no entanto...

Cucurrucucú, paloma,/ cucurrucucú, no llores,/ las piedras jamás, paloma,/ que van a saber de amores./ Cucurrucucú, cucurrucucú, cucurrucucú,/ paloma, ya no le llores.

mas não por escrito, mas falado, na frente de vocês (que estarão juntos, lado a lado).

Quem sabe um dia ainda pularemos e dançaremos,
e vocês rirão enquanto eu choro...de alegria.

Pois se não há otimismo,
há - suspiro! - aquele fiapo frágil de esperança
que prende a esse corpo mortal minha alma mortal,
há aquele(...) enquanto eu não pular pela janela,
há aquele enquanto eu levantar de manhã após gritar todos os NÃO
e há aquele enquanto eu sair de casa e ir ver vocês
e há aquele enquanto eu ver quem mais quiser ser visto,

VERDADEIRAMENTE.

8 Comentários:

Blogger Artur disse...

Sei lá... queria pedir pra quem ler comentar... especialemente esse post...
queria mesmo ouvir algo... qualquer coisa que não a voz do Caetano... cucurrucucu....

29/12/04 10:58  
Blogger Ristow disse...

Que engraçado, eu às vezes também sinto uma vondade insegurável de contar meus sonhos para o mundo - teve um dia que eu descrevi um no meu blog, mesmo sabendo que ninguém mais lia e que muito provavelmente estava falando sozinho; mas acho que a graça não é só contar para OUTREM, mas para si mesmo, e ter o prazer de falar em voz alta (ou traduzir num texto virtual, whatever)

Mas o mais engraçado é que eu também fiquei afetado pelo sonho depois de acordado, embora ele não fizesse muito sentido... deve ter sido uma manifestação inconsciente Freu-blablablá-vocês-sabem.

Anyway, uma mensagem para o dono da ratoeira azul: querer não é poder. Não, isso é o que diz o dito popular. A verdade é que querer É poder. Mas............................................




"Na sua experiência, como as pessoas mudam?"

"Bem, tem alguma coisa a ver com Deus, então não é muito agradável. Deus rasga a pele, com uma unha denteada, da garganta à barriga. E aí enfia uma mão imensa e suja lá dentro. Ele agarra os seus canos sangrentos e você desliza para escapar, mas ele agarra firme. Ele insiste. Ele puxa e puxa até quem todas as suas vísceras sejam arrancadas para fora. E a dor... nem consigo falar sobre isso. E aí ele as enfia de volta, sujas, enroscadas, rotas. Cabe a você dar os pontos."

"É assim que as pessoas mudam?"

"Sim."



Mas, no fim, você tá novinho em folha. \o/
E a sensação é muito boa, actually.
Mas requer mudanças e, portanto, sofrimento. "There's no victory without sacrifice" (li isso no trailer de RDR, bem brega né?)

29/12/04 11:35  
Blogger Yuri disse...

"Não me lembro se os dois entenderam o que eu queria lhes uivar. Mas eles pularam e dançaram comigo, e riram enquanto eu chorava.
de alegria..."

Não sei bem se entendi o que você quis me uivar (nunca tenho muita certeza). Mas pulei e dancei...
Abraço.
O Sônho.
verdadeiramente

30/12/04 13:22  
Blogger Lobz disse...

Eu nunca tenho certeza de que entendo o que você quer dizer... às vezes você me explica por a+b e eu continuo na dúvida. Mesmo assim, continuo cantarolando (porque cantar não sei) e dançarolando (porque dançar não ouso), a vida, o sonho, você, é tudo a mesma coisa....

20/1/05 16:59  
Blogger Artur disse...

Poxa, pedir comentários funciona!

=] dançarolaaaaaaaaaaaaaaaaaando

21/1/05 23:22  
Blogger Artur disse...

10 meses depois... 30.10.05...

Será que foi esse o início de TUDO? Porque hoje esse ser que pela primeira vez me apareceu nesse Sônho é tudo o que eu quero na minha vida...

30/10/05 22:19  
Blogger Artur disse...

é... revi o filme, revi a vida, hoje é dia 17 de dezembro de 2006, quase dois anos depois... e aí, dá pra seguir em frente?

A vida é uma estagnação só, nada muda, anos e anos e anos assim..

17/12/06 15:22  
Blogger Yuri disse...

Você me diga.

Mas acho que nem sempre é uma estagnação monótona.

17/12/06 20:18  

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